domingo, 10 de outubro de 2010

Devaneios - Sobre amor, ética e decepção

Era uma vez Romeu e Julieta. Era uma vez o amor. Era uma vez, sem felizes para sempre.

Geralmente escrevo inspirada pela rotina e os presentes que ela me traz. Hoje a inspiração é amarga, tão intensa que mesmo tentando contê-la, ela vaza através dos meus olhos, boca e letras. É uma tentativa desesperada de converter a tristeza em frases que salvem o restinho de mim que sobreviveu.

Estou ferida de morte, mas sei que tudo passa. É esse meu bote salva vidas.


A gente acorda, levanta, corre... Sai, trabalha, se estressa, ri, encara o trânsito, vê pessoas, julga, xinga, volta pra casa, descansa, ama, come, pensa, dorme... Nada ‘acontece’ sem que a gente ceda e faça, mecanicamente ou não.

As pernas não nos levam sem que a gente queira ir, o trabalho não é executado sem que a gente o faça (infelizmente), o amor não é amor sem que a gente ame. No fundo, somos causa e efeito das nossas escolhas, e nenhuma delas se impõe.

Discorri sobre isso pra ilustrar como me sinto depois de ouvir a palavrinha ‘aconteceu’. Quem tem um pouquinho de experiência de mundo sabe que, na maioria das vezes, ela resulta de uma merda muito grande um ato falho.

Passei a noite em claro pensando nesse deslize. Concluí que não, nada simplesmente ‘acontece’. Embora errar seja humano, passar por cima de sentimentos alheios é desumano, e se o perdão é divino, o que me resta é despejar palavras e buscar acalanto em algum lugar no meio desse turbilhão.

Outras pessoas deixaram ‘acontecer’ e agora pago o pato. É justo que eu sofra por escolhas alheias? De que valem meus atos éticos se a falta de ética dos outros me condena?

Me fiz perguntas e de algum lugar que ainda sonha, saíram as respostas...

Por mais que doa ser magoada, não perdi nada. A integridade que comandou meus atos é meu passe de libertação: sim, adianta ser ética, mesmo que nem todo mundo seja. Adianta amar, crer, ter fé nas pessoas... Porque quando uma delas me joga num abismo de decepção, é o histórico das minhas ações que me salva e me dá asas.

As emoções ainda são muito intensas e talvez deturpem o que quero expressar. Em síntese, fiz minha parte, fui machucada mas tenho uma caixinha de primeiros socorros. Minha consciência, vestida de branco, vai curar as feridas.

Amor é uma palavrinha curta e enorme. Amor não machuca. Amor é uma coisa oca quando não conhece o respeito. Amor basta pra que a gente ame, mas não basta pra que a gente seja feliz.

Amor não é aquele frio na barriga, nem tão pouco a emoção do flerte. Amor é conhecer bem o ser amado e ainda assim sentir frio na barriga.

Amor não se extingue porque você foi ferido. Não pode ser extirpado porque as coisas deram errado... Mas como nada simplesmente ‘acontece’, você tem escolhas e quando o amor te frustra, pode definir se ele vale a pena, mesmo travestido de vilão.

Me decepcionei e o amor ficou intacto. A fé é que morreu... E pra mim, amor sem fé é árvore infrutífera. Faminta como sou, estou abrindo mão dessa relação e de visitá-la na UTI. Desligando os aparelhos e dando à ela a morte digna que ela merece.

‘Acontece.’

9 comentários:

Camila Passatuto disse...

Vamos lá.

Quando comecei a ler seu texto, o Cartola começou a cantar aqui no fone a canção: 'Aconteceu', coincidência? Enfim, escute.

Não acredito que uma atitude mude um sentimento como o amor.
Uma paixão, um carinho, um platônico querer... tudo isso morreria na primeira falha. Com o amor é diferente. O sentimento de dor entorpece nosso ser e muitas vezes ficamos sem ação.
Acabar com a relação muitas vezes é a solução que encontramos, mas e o sentimento? Ele acaba com um simples querer?

Em relação à falha, todos falhamos, falhamos por querer, com gosto, com um sorriso na alma.


Matar às vezes acontece kkkkkkkk.

Beijo.

Ana SS disse...

Penso que a vida é feita de acontecimentos. Acontecimentos simplesmente 'acontecem'. Mas o que fazemos com os acontecimentos, o sentido que damos, a interpretação, as coisas que sentimos...isso é o que depende de nós. Nisso podemos ser éticos. Sartre disse que liberdade é o que fazemos com o que fizeram com a gente.
bem...só me resta lhe desejar coisas boas. Sorte, talvez?
um abraço.

Luíza Mançano disse...

'Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.'
Foi o que Sartre disse.
Te desejo e te passo minha força, porque te conheço e sei que poucas pessoas podem ser como você. E poucas merecem estar com você.
'Acontece' que algumas pessoas simplesmente nascem sem caráter.
Você foi privilegiada, só deu azar em 'trombar' com algumas dessas pela vida.
Mas isso também acontece. E passa.

samuelvigiano disse...

Eu fiz isso: desliguei os aparelhos para que o amor envelhecesse e morresse.

O amor não acaba, nem morre. Ele apenas se renova com outro ser amado... é assim.

O meu amor em relação a "ela" secou, mas agora ele se renovará com outra...

Belo texto querida

Beijão

carlota disse...

Você está certa, outro dia estava pensando a respeito dessa fé que você diz que perdeu, eu chamei de esperança, todo mundo diz que ela é a última que morre, e eu acho é a primeira e unica exclusiva culpada de nos arrastarmos por uma relação já morta..veja a gente perde a fé, e o resto vai pro ralo junto, é impossível construir sonhos em cima daquilo que já não acreditamos...
Só não perca a esperança de amar de novo, porque esse é um compromisso só seu..beijos

just-simple-words disse...

"o amor não é amor sem que a gente ame. No fundo, somos causa e efeito das nossas escolhas, e nenhuma delas se impõe."

A minha fé e amor também estão ligadas às máquinas, não as quero mortas, mas ao mesmo tempo sei que nunca mais atingiram o auge de novo, pois as cicatrizes não vão permitir grandes movimentos. Nos últimos meses aprendi, não a viver, mas a saber viver com o que tenho...
Gostei do seu desabafo, sinto muito dessas coisas, escrevo sobre elas, faço poemas, mas no fim todas elas não passam do meu caderno e morrem no fogo. A minha esperança é mínima e nunca será mais do que isso...


Boa semana.
Abraço,
Ana Rita.

Ruy Barros disse...

Não conhecendo o caso em particular, posso apenas devanear. A traição existe, existiu e sempre existirá... apesar de estarmos no ano 2010, o desejo do fruto proibido ainda está bem presente no nosso DNA. A ilusão e a decepção, caminham lado a lado, e às vezes, elas passam por caminhos tão estreitos que só uma delas consegue passar. Mas a vida é isso mesmo: arriscar! Se não, que graça tem? Bola prá frente e fé em... qualquer coisa, o importante é não desistir... é isso, já opinei.

Shi disse...

Traição existe... a gente só não pode achar que é "normal".

Não consigo ter fé em alguém que diz: "eu traí, mas eu te amo." O amor não precisa ouvir essa babozeira, não é?

Hoje em dia dizer eu te amo e mascar chiclete virou a mesma coisa. Se isso continuar, vou me mudar pra Marte.

Querida, que seja doce o que virá, e se não adiantar... passe numa Kopenhagen, compre chocolates finos e vá se deliciano.

Um beijo!

Ana Marques disse...

Flah,

Sim. Acontece.
Mas acontece escolhido. Talvez não premeditado. Mas aceito.
Em algum momento, entre o "quero" e o "aconteceu" houve um "sim".

Mas eu, diferente de ti, não acredito mais que alguém não tenha atos falhos. Acho que todos os têm. Acredito que mal nos conhecemos, por mais que tentamos, e conhecer os outros então... é barco furado por princípio.

Digamos que de intenções de amor, o inferno está cheio.
E olha que nem acredito em inferno... ;-)

beijo pra ti.

Postar um comentário